sábado, 5 de março de 2016

o banquete de mendigos ricos

"O Time Magazine quer dizer que os Rolling Stones
Já não cabem no mundo do Time Magazine
Mas eu digo (Ele disse)
Que o que já não cabe é o Time Magazine
No mundo dos Rollings Stones forever Rockin' and Rolling"
-- Caetano Veloso, Ele me deu um beijo na boca, Cores Nomes, 1982




já faz um tempo que as pessoas se incomodam com a longevidade que têm os Rolling Stones. imaginem então como não é surpreendente ver de perto que os rapazes continuam a pleno vapor, e com uma energia invejável no palco, confortáveis e felizes no alto dos 70 anos de idade e mais de 50 de banda. não é para qualquer um, não.

o público brasileiro esperou com o coração apertado esta passagem dos stones pelo país, que só foi anunciada no final de 2015 (mas aguardada desde 14 on fire!), como parte da Olé Tour 2016, que teve início no Chile em janeiro e terá seu show de encerramento simplesmente em Cuba! dá para ser mais incônico? me pergunto se Fidel assistirá... quantos séculos alcançam todos juntos e quantas décadas e páginas da história pop e revolucionária pós-moderna dá para escrever somando todos eles?

os Stones desembarcaram no Brasil para uma sequência de 4 apresentações no Rio (20/2), São Paulo (24 e 27/2) e finalmente Porto Alegre (2/3), vindos de apresentações no Chile, Argentina e Uruguai, onde tocaram pela primeira vez para uma multidão de 60 mil pessoas. a idade parece não atrapalhar os garotos. eles continuam ótimos e incansáveis. desde que chegaram, além dos shows, estão sendo vistos circulando por aí com os amigos e família no Brasil, sempre simpáticos e interativos.

interação, inclusive, é uma especialidade dos Stones. poucas pessoas, marcas e empresas fazem tão bem o seu trabalho de comunicação & marketing como eles. desde o final dos anos 60 e início dos 70, período do surgimento do logotipo musical mais conhecido de todos os tempos, os Stones fazem de forma magistral essa administração da banda, das gravações e das turnês como ninguém. sobreviveram a perdas irreparáveis, contornaram uma enxurrada de problemas com a polícia, problemas fiscais, problemas de saúde, mas atravessaram todos os tempos difíceis sem nunca deixar nada derrotar os Rolling Stones.

Time is on my side, minha canção favorita, infelizmente não faz parte do setlist de shows há muito tempo, mas para mim é a canção que melhor define os Stones, a maior banda de rock n'roll de todos os tempos, a mais persistente a desafiar o tempo e o espaço, subvertendo regras, tendências, perdas e ganhos. assim chegaram em 2016: na nossa frente! Facebook, Twitter, Instagram, Periscope... eles estão em todas as mídias, todas as plataformas, não apenas com a banda, mas com seus projetos alternativos que vão de exposições a programas de rádio e seriados de TV. se você é um fã de Stones, ouça o que eu digo: este é um grande momento para curti-los. eles não param de produzir! diversos fanáticos estão, inclusive, seguindo-os na turnê latinoamericana, aproveitando para fazer turismo de verão. os relatos em posts e fotos compartilhados aos milhares dão conta de uma alegria inesgotável. gente sem tempo, sem dinheiro ou sem disposição para fazer essa peregrinação stoneana pelo mundo afora, porém, tem esse recurso: seguí-los pelas redes, o que é sempre muito divertido.

os Stones são lançadores de tendência até nisso. foram pioneiros na venda de ingressos através do próprio site, nos anos 90, quando criaram inclusive a votação online de músicas para compor o setlist dos shows. desde 2012, por ocasião dos 50 anos de banda, novo disco e turnês, os Stones vêm usando intensamente as mídias sociais, ampliando e aprofundando ainda mais o relacionamento com seus fãs. a cada cidade em que tocam colocam em suas páginas músicas para votação, fotos dos bastidores e registros infinitos feitos por fãs, imprensa, família, staff e eles mesmos. o que é só mais uma cerejinha no bolo, sempre surpreendente e encantador de suas apresentações ao vivo. além de incluir as músicas escolhidas pelo público, eles variam partes do setlist e às vezes invertem bastante a ordem das músicas ao longo da tour, o que faz de cada show um momento realmente muito único. assim são os Rolling Stones: tratam a banda como uma empresa, cercam-se dos melhores profissionais e misturam tudo à vida pessoal, cada um à sua maneira, de modo que tudo se encaixa e todos parecem se divertir mais do que nunca. é um caso de estudo!

esta foi a quarta vez que vi um show dos Rolling Stones. a primeira vez foi há 21 anos, no estádio do Pacaembu, numa noite também meio chuvosa, com Rita Lee fazendo um inesquecível show de abertura. a turnê era a Voodoo Lounge e aquele foi o show mais luxuoso que eu já tinha visto até então na vida, com uma platéia histérica, um setlist incendiário misturando clássicos e new hits como Love is strong, bonecos infláveis gigantescos num cenário lisérgico e um gran finale pirotécnico que chegou a me assustar com a alta temperatura das chamas que uma cobra de 30 metros cuspia do palco. aquele foi chamado "o show do milênio" e fazia jus ao apelido - a primeira apresentação em São Paulo (eu vi apenas a segunda) teve que enfrentar um temporal pesado que desabou na cidade minutos antes do show, inaugurando ali uma história de amor entre os Stones e as chuvas de verão brasileiras. a chuva animou também o show do Maracanã, que teve transmissão completa da TV Globo. bons tempos!

mal sabia eu que aquela grandiosidade toda era apenas o começo. em 1998 eles voltaram com a turnê Bridges to Babylon e trazendo com eles ninguém menos que o autor da expressão "pedra rolante", Bob Dylan, que fez um absurdo show de abertura e ainda voltou para somar-se à banda na execução de Like a rolling stone, of course. foi outra noite inesquecível da minha vida, aquele 13 de abril. o setlist foi surpreendente (tocaram Sister Morphine e Little Queenie!) e mesmo o show tendo sido feito num lugar estranho (pista de atletismo do Ibirapuera), os telões de alta definição (que agora eram ovais) e um pequeno palco no meio da pista, que era ligado por uma ponte ao palco principal, conseguiam aproximar bem a banda do público. catarse pura. aposto que todos acharam que era a última vez, mas...

quase 10 anos depois, (e há exatos 10 anos atrás) em fevereiro de 2006 os Stones voltaram para a histórica apresentação aberta na praia de Copacabana. eu não quis me aventurar com as quase 2 milhões de pessoas que compareceram ao show naquele dia, um novo recorde mundial de público para a banda. foi catártico de novo e mais uma vez foi transmitido pela TV (graças!) já que foi o único show no Brasil. por ocasião de um trabalho e coincidência de datas, porém, eu acabei indo ao México alguns dias depois e vi o show lá. era a turnê A Bigger Band - nome perfeito, não? - e parecia muito uma turnê de despedida, com um setlist que mudou bem pouco ao longo das apresentações, recheado de grandes clássicos com o astral sempre lá em cima. para mim este foi um momento muito único com os Stones... eu achei que não veria esta turnê, tinha ficado triste pela falta de coragem de ir ao show de Copacabana. consegui o ingresso do México um dia antes do show e quando ouvi, pela primeira vez, Keef tocar Happy, não pude deixar de pensar na felicidade especial daquele momento.

poderia ter terminado aí minha história não tão longa com os Rolling Stones. 3 concertos de turnês diferentes, em locais diferentes, já em momentos muito maduros da banda, pré e pós-milênio (expressão que ninguém, inclusive, usa mais). mas não. serelepes como sempre e mais elegantes e produzidos do que nunca, eles voltaram para mais uma tour. olé!

quando o sábado 27/2 finalmente chegou eu era ansiedade pura. resgatei essa minha história de mais de 20 anos com eles, de mais de 40 de vida em que suas músicas sempre estiveram presentes, para tentar entender como podem durar tanto - e como isso é fantástico e afeta minha vida. há alguns anos tatuei no braço direito o logotipo dos Stones e achei que deu sorte. não pensei que fosse vê-los ao vivo de novo, mas não é que eles vieram?

eu gostaria de ter ido a todos os shows no Brasil, mas só dei conta da noite paulista de sábado, na pista "pobre" com ingresso valendo mais de 500 reais no mercado oficial com suas taxas de inconveniência que não incluem nem mesmo o ingresso, que você paga para imprimir em casa. a pista vip, que ocupava na verdade metade do gramado do Morumbi, custava mais de mil reais. surreal! mas o grande banquete de mendigos, mais atual e rico do que nunca, valeu cada centavo. como diriam os Titãs, a gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade!

a tarde estava quente e agradável e os Titãs fizeram de novo um ótimo show de abertura - o que para mim completou a lista de "local guests performances" perfeitos para abertura dos Stones em São Paulo, ao lado de Rita Lee em 95 (a versão feminina de Mick Jagger e maior ícone feminino do rock brasileiro), Cássia Eller em 98 (em sua fase super rock n'roll também, fez um show ótimo, mas que ninguém queria ver já que Bob Dylan também estava lá), e agora os Titãs, repetindo o sucesso de Copacabana, insistindo em ser ainda a melhor banda de rock do Brasil.

às 21h, com o público aquecido e ansioso, apagaram-se as luzes e já na primeira nota todo mundo sabia que Jumping Jack Flash estava abrindo mais uma noite histórica. daí em diante foi quase como um transe. Mick saltitante num paletó reluzente, Keef todo tropical e teatral já atacando a guitarra com vontade, Ron Wood cheio de lagartos e bem humorado como sempre, Charlie Watts sorridente como nunca numa camiseta amarelo-bandeira. dali já era possível saber que seria um show diferente do que vinham fazendo nas últimas semanas, em que abriam com Start me up.

e assim foi a sequência depois da pirotecnia de abertura: It's only rock n'roll, com o estádio inteiro gritando a plenos pulmões "but I like it, like it, yes I do!", e a sequência de petardos Tumbling dice, Out of Control e All down the line. ou seja, o astral altíssimo e platéia completamente dominada e em êxtase em 5 músicas...

uma pausa mínima para recuperarmos o fôlego, Mick pega o violão e Ronnie se senta para tocar uma guitarra havaiana de 1928 (!) já anunciada pelo Twitter minutos antes de entrarem no palco. e é assim que eu sei antecipadamente o que vão tocar, mesmo antes do pianista Chuck Leavell dedilhar a introdução maravilhosa de She's a rainbow. que momento! além desta noite em São Paulo, eles haviam tocado a canção na abertura da turnê no Chile, depois de 18 anos de sua última execução num show.

na sequência outra também rara nas apresentações: Wild horses, apresentada com um feeling incrível de Keith Richards e novamente acompanhada por todas as vozes do estádio, enquanto Mick sumia um pouco para retornar ainda mais endiabrado. e lá vamos nós de novo para a saraivada de clássicos absolutos: Keef anuncia as primeiras notas de Paint it black daquela maneira que só ele sabe fazer e Mick surge com uma camisa azul esvoaçante puxando as palmas para marcar a batida da música, cuja introdução de bateria acabava de ser apresentada de forma magistral por Charlie Watts descendo o braço sem dó. Paint it black é tão forte, tão marcante na história de contravenções dos Stones, e ao mesmo tempo tão diferente de tudo o que eles tocam, uma música tão rara, que é impossível não pensar nisso. Keef e Ronnie estão de camisas verde, Charlie de amarelo e Mick de azul. são as cores da bandeira do Brasil e a letra fala sobre querer pintar tudo de preto. é uma música de revolta. a mensagem está mais atual do que nunca!

e segue o baile: em Honky tonky woman Mick gira a camisa no ar e moves like Jagger, Keef faz outro solo que é sua assinatura de sangue e combinação perfeita com o fiel escudeiro Ronnie, e assim colocam todo mundo para dançar e preparam a platéia para as músicas que Keef canta, Slipping away (que eu esperava que fosse Happy mas achei pura perfeição, slipping away...) e Before they make me run. Keef em sua camisa estrelada e carisma absurdo, é ovacionado pelo público, agradece em português e deixa todo mundo babando e sorrindo.

Mick ressurge de gaita em punho, nova jaqueta reluzente, Keef já está com outra camisa, agora uma azul, Ronnie de roxo... é difícil até de entender como eles fazem tudo tão rápido. o show se renova a cada música. Midnight Rambler vira uma sonzeira de mais de 10 minutos! Mick dá um show de gaita e de dança, com seus passos únicos e convulsivos, que, dizem as boas línguas, foram ensinados por Tina Turner. quando a música acaba você fica se perguntando se alguém anotou a placa do caminhão que acaba de atropelar todo mundo. eu me lembro de um amigo, que costumava dizer "este foi mais um clássico do blues". oh yeah!

Mick então pega guitarra e convida as pessoas "cantem comigo hã!" para anunciar Miss you. nem precisava. é claro que as 60 mil pessoas viram instantaneamente corujas e cantam "woo woo woo woo woo woo woo... and I miss you..." com ele. novo show de danças e reboladas, eles desfilam pela passarela que vai até o meio do gramado enquanto Darryl Jones arrasa no solo de baixo mais uma vez, assim como o saxofonista que nos faz lembrar de Bobby Keys... lord I miss you.

é o momento nostalgia do show. Lisa Fischer também faz falta, mas Sasha Allen não faz feio quando vai cantar Gimme Shelter num dueto com Mick que não poderia ser mais mágico - uma chuva leve e vistosa começou a cair enquanto eles se apresentavam, rendendo imagens belíssimas, numa sincronia perfeita com a música e a certeza de que "fade away" já é algo impossível para os Rolling Stones.

será que dá pra ficar melhor? Start me up e novo show de fogos começa tudo outra vez. a alegria parece nunca ter fim. Mick some no finalzinho apenas para voltar vestido num deslumbrande casaco vermelho de pelos esvoaçantes, num palco todo majestoso e satânico. não é novidade, mas é sempre bom demais e muito impactante ver Sympathy for the devil ao vivo, sem dúvida um dos momentos mais esperados do show. e, paradoxalmente, é um momento que não queremos que chegue, pois significa que estamos nos aproximando do fim. Mick uma vez disse que Sympathy for the devil foi a tentativa deles de fazer um samba, por isso tem um toque de candomblé na percussão. a melhor hora para notar isso é quando ele convida Sasha Allen para o samba e ela não se faz de rogada. pleased to meet you, hope you guess my name!

Brown sugar é a última música antes do bis e deixa todo mundo ensandecido, cantando em uníssono "I say yeah, yeah, yeah, wooooow..." algumas centenas de vezes. Mick Jagger faz o que quer com a platéia. Ronnie e Keef tricotam com as guitarras sorrindo um pro outro. Karl Denson faz um solo de saxofone maravilhoso, Bobby Keys se orgulharia, e Charlie Watts sorri. é a hora do adeus. mas calma que ainda tem bis! e que bis.

depois da pequena pausa, quem sobe ao palco primeiro é o coral Sampa, que faz de forma emocionante a introdução de You can't always get what you want. Mick está usando uma boininha carcamana e puxa o outro coro de 60 mil vozes que repete como num mantra "you can't always get what you want, but if you try sometimes, you just might find you get what you need". não poderia ser mais verdade! no final a música acelera umas mil rotações, vira um tremendo rock n'roll gospel e você se lembra porque está ali. it's just what you need...

Mick grita "fantastic!" e "bom pra caralho!" antes de Keef puxar os acordes mais conhecidos da história e todo mundo cantar junto outra vez a tentativa eterna de se satisfazer de Rolling Stones, uma tarefa impossível, como eles mesmos dizem. é impossível não querer mais!

I can't get no satisfaction... but I try and I try and I try and I try... Mick, uma vez mais, corre o palco de ponta a ponta. Keef faz mais um solo maravilhoso e cheio de feeling, duelando com Ronnie. Charlie desce o braço de novo com ainda mais força. essa é uma que nunca muda e sempre fecha o show. mas eles executam como se fosse a primeira, com uma energia contagiante que faz as pessoas pularem por mais de dez minutos gritando a mesma palavra: satisfaction, satisfaction, satisfaction...

uma nova queima de fogos anuncia o final do show, enquanto a banda se reúne no centro do palco para agradecer e se despedir. somos todos adolescentes outra vez. todo mundo quer mais! estamos exaustos e felizes, mas nunca satisfeitos.

Adiós Olé Tour! obrigada Rolling Stones! falta muito para a próxima turnê? até lá a gente te segue pelas redes. keep on rock & forever rolling!









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